Trinta anos depois da independência de Angola, o seu principal obreiro é evocado numa obra que desvenda muitos aspectos da sua personalidade excepcional. Ao longo das 222 páginas do livro Agostinho Neto, uma vida sem tréguas, o fundador da nação angolana ressurge do passado com os contornos que o tempo esculpiu, sendo evocado por uma vasta e diversificada plêiade de jornalistas, historiadores, políticos, velhos condiscípulos, correligionários, familiares, amigos e admiradores.


Sendo múltiplas as revelações que este livro apresenta, poder-se-ia perguntar a cada um dos seus potenciais leitores: sabe quem foi Agostinho Neto? Ou julga que sabe? Porque seja qual for o grau do conhecimento individual dessa figura ímpar da História de Angola, por certo que este livro irá desvendar-lhe muitos aspectos novos da sua vida e da sua obra como homem e como cidadão, como poeta e como político.


Esta edição reúne um conjunto de textos e imagens que reconstituem a vida e acção de Agostinho Neto, fazendo como que a sua biografia, à luz de testemunhos, fotografias e documentos que, em muitos casos, o apresentam sob facetas ignoradas ou pouco conhecidas, nomeadamente sobre a sua juventude em Angola e em Portugal, as vicissitudes que enfrentou como estudante, as prisões que sofreu, o julgamento de que foi réu no Tribunal Plenário do Porto, as circunstâncias do seu noivado e casamento, o desterro em Cabo Verde e o episódio rocambolesco da fuga de Lisboa para Tânger, antecedendo o capítulo final sobre a luta acérrima que teve de travar para a independência de Angola, a actividade que desenvolveu como Presidente do MPLA e, por último, o papel que desempenhou como Presidente da República Popular de Angola.


O retrato biográfico de Agostinho Neto - retrato que foi confiado a três jornalistas e não a historiadores, mas nem por isso menos rigoroso nos critérios de investigação -, é ainda enriquecido com o testemunho de quem melhor o conheceu e apoiou, ao longo de uma vida intensamente vivida (e muitas vezes sofrida) em comum: a escritora Maria Eugénia Neto, sua viúva. Eugénia Neto participa nesta edição com uma oportuna entrevista em que recorda não apenas o homem da sua vida, mas põe os pontos nos is sobre um conjunto de adulterações históricas e também de manobras hodiernas que visam eliminá-lo da memória colectiva.


A par do homem e do político, também o poeta Agostinho Neto - sem dúvida dos maiores de língua portuguesa em todo o continente africano - merece a devida atenção, num ensaio especialmente elaborado por um dos mais conceituados mestres de literaturas africanas, Pires Laranjeira, da Universidade de Coimbra. Ainda no campo literário, o poeta Luís Veiga Leitão está presente com uma ode em que presta homenagem «ao amigo e camarada das prisões e tribunais plenários nos tempos do fascismo». A ilustrar este poema figura um notável retrato à pena de Agostinho Neto pelo artista António Domingues, recentemente falecido.


O líder angolano é ainda recordado numa série de depoimentos de numerosas personalidades que com ele privaram. Tais depoimentos abrem com um texto evocativo de sua filha Irene Alexandra Neto, actualmente vice-ministra das Relações Exteriores para a Cooperação. Seguem-se outras personalidades angolanas como Adriano Sebastião e Ruy Mingas, que foram embaixadores de Angola em Portugal o ex-primeiro-ministro angolano, Lopo do Nascimento o ex-Procurador da República, ex-embaixador e também poeta, Antero Abreu a magistrada Maria do Carmo Medina, jubilada do cargo de juiz do Tribunal Supremo de Angola o deputado, poeta e artista plástico Costa Andrade e Fernando Costa Campos, que foi condiscípulo e colega de quarto de Agostinho Neto em Coimbra.


Entre os portugueses, colaboram nesta obra com importantes testemunhos o general Pedro de Pezarat Correia, que como representante do MFA teve participação activa na transição de Angola para a independência o ex-Presidente da Assembleia da República e actual Presidente do PS, António de Almeida Santos, que privou de perto com Neto em Coimbra o historiador Pedro Ramos de Almeida, que esteve preso e foi julgado com Neto, no Porto, quando ambos eram dirigentes do MUD Juvenil Júlio Pequito, que foi companheiro de quarto de Neto quando este era estudante em Lisboa e Carlos Antunes, ex-dirigente do PRP-BR, que o líder angolano nunca ostracizou, não obstante incorrer no desagrado do PCP.


Outros testemunhos (coligidos de várias fontes) contribuem para definir a personalidade de Agostinho Neto. Tais testemunhos são de: José Eduardo dos Santos, Presidente da República de Angola Pedro Pires, Presidente da República de Cabo Verde Ramalho Eanes, ex-Presidente da República Portuguesa Joaquim Chissano, ex-Presidente da República de Moçambique Luís Cabral, ex-Presidente da República da Guiné-Bissau Boaventura Cardoso, ministro da Cultura de Angola Paulo Jorge, deputado e ex-ministro das Relações Exteriores de Angola Iko Carreira, ex-ministro da Defesa de Angola Silvino da Luz, diplomata e antigo membro do Governo de Cabo Verde Adriano Moreira, ex-ministro do Ultramar Mendes de Carvalho e Conceição Cristovão, escritores e deputados angolanos Carlos Amaral, diplomata António Pinto da França, ex-embaixador de Portugal em Angola Carlos Brito, escritor e ex-dirigente do PCP Basil Davidson, escritor e jornalista britânico Augusta Conchiglia, jornalista italiana Janet Elizabeth Carter, ensaista sul-africana Carlos São Vicente, poeta, ensaista e economista angolano Russel Hamilton, publicista norte-americano Edmundo Rocha, médico, militante do MPLA desde os primórdios Jofre Rocha, escritor e poeta angolano Patrick Chabal, ensaista britânico Luís Fernando, escritor e jornalista angolano e António Calazans Duarte, engenheiro português, protagonista do primeiro processo político julgado em Luanda.


O elenco desta edição é também enriquecido por vários textos de Agostinho Neto escritos na prisão, um dos quais, com reflexões sobre o racismo e a ambicionada independência, lhe foi apreendido pela polícia política. São ainda apresentadas, numa secção intitulada «Discurso directo», várias frases seleccionadas dos seus discursos e conferências.


Complementarmente, o livro inclui uma cronologia dos acontecimentos (pessoais, nacionais e internacionais) que marcaram o tempo em que Agostinho Neto viveu. Se outro mérito não tiver, esta cronologia evidenciará que, a par da luta de muitos angolanos pela independência e da solidariedade internacional com essa luta, também em Portugal não faltaram os abaixo-assinados, as greves, as vigílias e outras manifestações em defesa da autodeterminação e contra a guerra colonial, com o inevitável cortejo de represálias, que muitos pagaram com a prisão, a tortura e o exílio. Dessa unidade na luta contra o poder colonial fascista, Agostinho Neto sempre se mostrou consciente como ninguém, conforme o demonstrou por diversas vezes, nomeadamente na altura dramática da independência de Angola, em que - perante a ausência de representantes oficiais de Portugal -, dirigiu ao povo português uma expressiva mensagem cujo manuscrito se reproduz nesta edição, atendendo ao seu carácter histórico.


No seu conjunto, é indubitável que este volume concorrerá para reavivar a memória de Agostinho Neto junto daqueles que ainda o conheceram, mas sobretudo para despertar entre os mais novos a curiosidade e o interesse por esse gigante da história africana que - nas palavras do famoso jornalista britânico Basil Davidson - esteve «no centro do furacão», ao assumir com firmeza a liderança da luta pela independência de Angola. Poucos, como ele, se podem vangloriar de terem colocado «pedras nos alicerces do mundo». E de merecerem, por isso, o seu «pedaço de pão».


Editado pelo jornalista Acácio Barradas, que é também o autor de grande parte dos textos (com destaque para os que traçam a evolução de Neto desde o nascimento até à fuga de Portugal), este livro tem a colaboração de outros jornalistas bem conhecedores das realidades angolanas, como Moutinho Pereira (que narra a trajectória política de Neto, desde que fugiu de Lisboa até à sua morte) e Artur Queiroz (que fez a entrevista a Maria Eugénia Neto).