Durante muitos meses, desfilaram na memória daquela família recordações difusas sobre aquela noite. A memória ilumina a maior dor com uma luz suportável, pois não se pode sofrer de outra maneira. A vida privada de Augusto Mel era do domínio público. Para alguns, o jogo e as mulheres foram o motivo que o levaram a pôr fim à própria vida. Outros avocaram para aquele tresloucado gesto, razões puramente financeiras que, invariavelmente acabam por pesar mais do que os preconceitos. Até que a sua cunhada, Clotilde Mel, desconfiada daquela conclusão, solicitou o benefício das observações de Apolo Silveira de Saraiva.
Ao longo da investigação, o juiz desembargador acabou por inferir que uma pessoa é capaz de esperar tudo, menos as fantasias da realidade. Afinal, podia-se tocar no fundo e depois regressar à vida.