Na contramão da maior parte da historiografia, inclinada geralmente a observar a influência da cultura africana nas colónias americanas e desconsiderar a ocorrência do mesmo fenómeno nas metrópole, desde 1980 que José Ramos Tinhorão tem vindo a investigar a presença dos negros em Portugal. Neste livro, Tinhorão apresenta o mais recente fruto dessa pesquisa: o rasga, género de canto e dança surgido entre os negros e mulatos de Lisboa, de som caracterizado por uma espécie de ganzá ou reco-reco, e até aqui completamento ignorado pelos estudiosos da música.
Num esforço quase arqueológico, o autor conseguiu reconstituir a trajectória do género desde o seu aparecimento, por volta do início do século XIX, passando pelas primeiras apresentações no teatro em Lisboa e depois no Rio de Janeiro, até registos mais recentes, onde já aparece misturado com outros géneros musicais, como o verde gaio português e a cantiga de roda brasileira — percurso que o leitor poderá seguir também nas raras gravações do CD que acompanha o volume.