Enea Silvio Piccolomini (1405-1464, Papa Pio I I 1458-1464), apreciado por Jakob Burckhardt pela sua sensibilidade à paisagem, percorreu grande parte da Europa do séc. XV. Neste livro, analisam-se as suas descrições de Génova, Basileia, Passau, Viena e Tabor (na Boémia) sob uma dupla perspectiva: intertextualidade entre Piccolomini e autores seus contemporâneos como Leonardo Bruni, Leon Battista Alberti, Poggio Bracciolini, Pier Candido Decembrio relação dessas descrições com o momento histórico em que foram produzidas bem como com a biografia do autor e as suas ideias sobre a Europa.
A cidade de Tabor, foco do movimento Hussita, é apresentada por Piccolomini como o ponto mais baixo em uma escala civilizacional, que, tanto no seu aspecto urbanístico como no seu aspecto cívico, ostenta a desordem que advém da heresia. Enquanto a respeito de Génova ou Basileia Piccolomini se pôde socorrer de modelos anteriores (e até para compreender Viena faz auto-citações da sua descrição de Basileia), perante uma cidade como Tabor faltavam-lhe referências ou modelos que lhe permitissem penetrar a opacidade da realidade urbana. a visão de Piccolomini, contudo, tem o mérito de perceber a ligação entre a ausência de arquitectura e de arte sacra entre os Hussitas e os princípios doutrinais do movimento com a sua ênfase na pregação e no entendimento da Escritura. E isso prova que era um leitor atento do espaço urbano nas suas relações com as sociedades e ideias que o produzem.