Rimbaud é a singular biografia que Yves Bonnefoy escreveu sobre Arthur Rimbaud. Singular, desde logo, porque chamar-lhe uma «biografia» é considerar, porventura abusivamente, que as impressões tecidas por Bonnefoy a respeito dos acontecimentos mais decisivos da vida de Rimbaud são o motivo principal deste livro.

Ou se calhar não: o motivo principal deste livro são, de facto, os acontecimentos mais decisivos da vida de Rimbaud. A singularidade da biografia, e a razão pela qual não seria incorrecto chamar-lhe um ensaio literário, consiste no facto de esses acontecimentos coincidirem com a escrita dos mais decisivos poemas de Rimbaud.

Se Rimbaud é uma biografia invulgar será então porque das várias etapas da vida do poeta, - a infância, a adolescência e a maturidade - são seleccionados e analisados como episódios fundamentais alguns poemas.
É frequente, na crítica literária, interpretar certas obras através da alusão a episódios particulares da vida de quem as escreveu. Menos vulgar será tentar pensar a vida de um poeta, através dos seus poemas. É este o pessoal exercício que Yves Bonnefoy nos oferece.


Para entender Rimbaud leia-se Rimbaud, separa-se a sua voz de tantas outras que a ele se juntaram. É inútil ir procurar longe, além, aquilo que nos diz o próprio Rimbaud. Poucos escritores tiveram como ele a paixão de se conhecerem a si próprios, de se definirem, de se quererem transformar e tornar num homem outro pelo conhecimento de si por isso levemos a sério esta busca, que é aliás muitíssimo séria. Proponho reencontrar uma voz, decifrar o seu querer, reanimar a sua entoação, sobretudo –esses enlevos, essa pureza inimitável, esses triunfos, esses rompimentos.