O autor desta obra, José Salgueiro, senhor de uma memória invulgar, lembra-nos a miséria desses tempos. A miséria que consumia os mais pobres: a fome, o frio, a doença, as condições precárias de higiene, a incerteza quanto à vida no presente e no futuro. E, depois, a prepotência com que eram tratados os mais frágeis e, de entre eles, as crianças. O homem é fruto das suas circunstâncias, como habitualmente ouvimos dizer. José Salgueiro, nascido em Montemor-o-Novo, cresceu num ambiente de conflito social e de revolta contra a miséria social e económica, as condições de trabalho, as injustiças do dia-a-dia e da vida por inteiro. Convicto das suas razões, e em conjunto com outros companheiros, participa na política de forma activa e empenhada, nomeadamente na luta pelas oito horas de trabalho diário contra a jornada medieval de sol a sol. Eram lutas perigosas e a repressão era tremenda, com espancamentos, prisões e mortes. Havia que manter os privilégios dos ricos, dos senhores abastados, dos grandes proprietários, e o governo de Salazar era a expressão desse poder anacrónico e desumano. O Autor deste livro forjou o seu pensamento, a sua personalidade no dia a dia complexo e duro da luta pela sobrevivência e pela superação dum presente sem horizontes, mas nunca se rendeu.
[Fernando Mão de Ferro]
O Mestre José Salgueiro é um desses seres únicos que marcam indelevelmente o seu tempo e as gerações posteriores. Seres que, pela sua força interior, são o centro do universo onde quer que estejam. Mas Salgueiro distingue-se neste universo restrito, mas imenso, por pôr as suas potencialidades ao serviço da comunidade, do bem comum. Por outro lado, o Mestre Salgueiro é um exemplo vivo de como foi o século XX português no Alentejo, ele que comeu o pão que o diabo amassou. Todavia, essa marcante vivência não o tornou um ser triste, azedo, desiludido, antes pelo contrário, mantém intacta, aos 91 anos, essa particularidade que o caracteriza: uma personalidade de espírito aberto e entusiasta, ainda com muitos sonhos para cumprir.
[Eduardo M. Raposo in Extractos do meu sentir]